Tudo começa numa
imprensa desfibrada, burocratizada e mundana que já não sabe qual o seu papel.
A imprensa regional mimetiza aquela que se apresenta como nacional e o
resultado deste conluio de equívocos é que não temos vigilância na esquina nem
nos grandes espaços.
Carlos Augusto Ramos, vulgo Carlinhos Cachoeira,
começou na esquina, opera a sua rede de contravenções há pelo menos duas
décadas num estado rico, próximo dos grandes centros e onde existe uma mídia
regional bem implantada. A Organização Jaime Câmara, estabelecida logo em
seguida à fundação de Goiânia (1935), edita o diário O Popular, um dos melhores
do país, tem um sistema de rádio e outro de TV com onze emissoras e
repetidoras.
Este complexo midiático, porém, não foi capaz de
perceber a intensa e ousada movimentação do contraventor-mor, mesmo depois do
seu envolvimento com Waldomiro Diniz, assessor do então todo-poderoso
ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, no primeiro mandato do presidente
Lula da Silva.
Este observador não pretende lançar suspeições
sobre o grupo midiático; está, sim, radiografando os sintomas da inércia
jornalística que hoje domina grande parte da mídia regional brasileira. O poder
da grande imprensa americana veio de uma brava imprensa regional treinada nas
trincheiras jornalísticas locais. A interdependência dessas esferas gera uma
comunidade atenta, ágil, que só recorre à instância policial na hora do
desfecho.
Para não parecer provinciana nossa mídia regional
adota um glamour desbotado, cerca-se de colunistas sociais e veste Prada,
esquecida de que o seu pedigree ou virá da dedicação ao interesse público ou de
nada valerá.
O Estado policializado, dependente do poder de
polícia, incapaz de detectar ameaças e denunciá-las, é em última análise fruto
de uma imprensa – grande, média ou pequena – viciada no perigoso jogo de olhar
para o lado.
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