A essência da propaganda política de José Serra exibida em 11 de outubro foi a exploração de um ponto: a biografia do candidato. Inclusive inicia-se desta forma: Serra tem mais biografia. O candidato afirma categoricamente que é coerente; então, sua biografia é coerente, parece ser o que pretendia dizer.
Se a biografia de José Serra era coerente, a coerência encerrou-se com aquele comercial político. Poucas pessoas expressaram manifestações mais contraditórias que as de Serra.
José Serra concorre com a candidata apoiada por um governo com mais de 80% de aprovação. É difícil falar mal de um governo como esse, mas ele precisa atacar a concorrente sem atacar o governo que a apóia: precisa defender que dará continuidade aos programas do governo Lula, mas o governo Lula escolheu Dilma Roussef para dar continuidade a esses programas. Diante de tal situação, resta a desorientação, daí a incoerência escancarada na propaganda política.
Logo no início a publicidade de Serra estampa a importância dos medicamentos genéricos e alega: a saúde economizou mais de quinze bilhões. Ainda ao tratar da saúde, José Serra deixa evidente sua estratégia de marketing: convencer o eleitor de que ele é o genérico de Dilma Roussef; elegeu o princípio ativo do PT como necessário, mas condena a marca PT. O auge da “generalização” de Serra em Dilma se dá quando o narrador do comercial defende: “José Serra foi o melhor ministro da saúde da história”. Por pouco não foi adotado o bordão do presidente Lula: “Nunca na história desse país houve um ministro da saúde como José Serra...”.
A propaganda ainda exibe imagens do debate realizado no dia anterior e nelas Serra acusa Dilma de estar nervosa e agressiva. Porém, a agressividade partiu de Serra e seus aliados. O que pode ser mais incoerente que agredir e se sentir agredido?
Na primeira agressividade contra a pessoa de Dilma tentaram associar sua imagem ao ateísmo. A revista Veja, edição 2040, de 26 de dezembro de 2007, veiculou reportagem na qual constava pesquisa realizada pela CNT/SENSUS reveladora de que apenas 13% dos brasileiros votariam em um ateu para presidente. A agressão não deu certo. Dilma sofreu um câncer recentemente e ficou fácil para ela provar que sentiu a presença divina: todos crêem que diante do inesperado a conversão é real e não meramente política.
Na segunda agressividade contra a pessoa de Dilma tentaram associar sua imagem ao homossexualismo. A mesma pesquisa CNT/SENSUS revela que apenas 32% dos brasileiros votariam em um homossexual para presidente. Por isso falsificaram um processo que circula na internet no qual Dilma é chamada a indenizar sua ex-doméstica, suposta companheira homossexual.
Dilma Roussef não precisa se preocupar com a perda de votos, pelo menos em Mato Grosso, em razão do falso processo. Boatos sobre orientação sexual Júlio Campos aguentou grandes, por anos. Soube como lidar com o problema e deu, antes de tudo, prova de capacidade política ao tratar com diplomacia assunto de grande penetração na vida pessoal, chegando a gozar do episódio de sua suposta contaminação pela Aids. Foi eleito deputado federal com 72.560 votos.
De tudo, a incoerência que mais chamou atenção na propaganda eleitoral foi o ataque de José Serra a sua própria profissão. Ele é economista e até um economista de meia tigela condena o inchaço das grandes cidades. Wilson Santos, que nem é economista, mas é do partido de Serra, passou seis anos como prefeito choramingando que a saúde em Cuiabá estava um caos porque os doentes do interior aportavam na capital. Contudo, José Serra pretende atrair para São Paulo o maior número possível de migrantes nordestinos: sua propaganda eleitoral mostra uma baiana que chegou a São Paulo há um ano para tratamento de saúde e está satisfeitíssima. A eleitora chega a mandar um recado para o povo do Bahia: “aqui não tem dificulidade”. Está lançado o programa “bolsa pau-de-arara”.
João Cabral de Melo neto escreveu Morte e Vida Severina, poema que retrata a tristeza do nordestino retirante, obrigado a deixar sua região arrasada pela seca. A retirada para outras regiões é o último recurso daquele povo valente sofrido. José Serra, mais atento aos votos que o nordestino de São Paulo deu a Tiririca que ao sofrimento daquele povo ao deixar sua terra natal, incentiva irresponsavelmente a migração com seu “bolsa pau-de-arara”. Deveria ser coerente e lançar o programa “bolsa chapa e cruz”, assim Chico Galindo poderá mandar para São Paulo os doentes que Wilson Santos nunca quis em Cuiabá.
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