Cícero Henrique
A cada metro das ruas de Várzea Grande e Cuiabá o que se vê são buracos. Em algumas ruas cobertas de buracos o trânsito de veículos foi interrompido.
Na seca, Várzea Grande esconde por detrás de uma nuvem de poeira levantada nas inúmeras estradas de terra , mostra a difícil realidade de quem vive diariamente sem asfalto. Nesse contexto enevoado pelo pó vermelho, tarefas prosaicas ganham contornos quase heroicos dos condutores de veiculos.
Nesses lugares, onde há anos a população aguarda a chegada do asfalto, tão prometido a cada nova eleição, deslocar alguns quilômetros pode durar horas, levar familiares para o hospital mais próximo é uma operação de risco e até a polícia enfrenta dificuldades para perseguir bandidos em trilhas de difícil acesso. Motos e carros quebrados, falta de mercadorias no comércio e altos índices de doenças respiratórias ajudam a compor o cenário de atraso, ao qual os moradores dessas cidades ilhadas pelas estradas de terra estão submetidos em algumas épocas do ano.
O martírio dos sem-asfalto só muda com o ritmo da natureza. No clima seco, a poeira aumenta e as estradas parecem caminhos em meio a um deserto. No período chuvoso, a terra solta dá lugar ao lamaçal, tornando algumas ruas praticamente inacessíveis.
A falta do asfalto nas estradas de acessos a esses lugarejos – geralmente reflete também no desenvolvimento lento da economia do município de Várzea Grande, onde o progresso chega em conta-gotas. O pequeno e o grande comerciante reclamam de forma igual da inviabilidade de ampliar seus negócios; com as ruas esburacadas, o acesso difícil desgasta mais os veículos, consome mais gasolina e encarece a equação para obter um lucro mínimo.
O resultado de anos em meio à poeira e ao abandono é um sentimento dividido entre quem já não acredita mais em ver a vida melhorada e quem se revolta por se julgar esquecido no meio do nada.
"Nos abandonaram e nem deram satisfação. Estamos completamente perdidos”, reclama Jailton Dantas, 57, morador do bairro Bosque da Saúde.“Estão nos enrolando”, completa o estudante Inácio Ferreira dos Santos.
Generosidade alivia os problemas
As condições ruins das ruas de Várzea Grande e de Cuiabá fazem com quem moradores de diferentes bairros colecionem situações inusitadas no dia a dia. Em alguns locais, o problema é o enguiço constante do caminhão de alimentos. Em outros, já faltaram óleo e gás.
Para driblar os incidentes, comerciantes e consumidores aderiram a uma estratégia pouco usual.A gente vai jogando água e vai levando”, diz resignada a moradora Lúcia Soares do bairro Santa Isabel em Várzea Grande.
Promessa de asfalto faz parte da rotina
Moradores se dividem entre o sonho de um dia ver a situação mudar e a revolta pelo abandono
Na mesmo bairro, Marina Silva de Castro, 90, demonstra descrença. “Cadê o asfalto?”, questiona para, em seguida, ela mesmo responder de forma enigmática: “Falta unir. A política é a ciência do povo, mas esqueceram da gente. Aqui é tudo assim, mas só mudo daqui para o cemitério”, filosofa.
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